Oração e Fé
O motivo que a gente esquece
Entre as sete cartas do livro de Apocalipse, a primeira é endereçada à igreja de Éfeso — e começa só com elogios. Jesus reconhece as obras dela, o trabalho árduo, a perseverança, a boa doutrina, a firmeza contra o erro. Era uma igreja que fazia tudo certo.
Mas então vem a única ressalva da carta, e é justamente ela que muda tudo: "Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor" (Apocalipse 2:4).
O que era esse primeiro amor
O primeiro amor de que a carta fala não é um sentimento qualquer — é a paixão do começo, a devoção inicial. No início, a igreja de Éfeso enfrentava tudo, era ativa, causava transformação real ao redor dela. Havia entrega, havia fogo.
Com o tempo, essa igreja continuou certa em muita coisa — manteve a aversão à idolatria, aos maus costumes, aos falsos profetas. Nada disso mudou. Mas foi se acostumando. Se acomodando. A paixão inicial, aquele ardor do começo, foi ficando pra trás — mesmo com a estrutura toda em pé.
Tudo certo por fora, vazio por dentro
Repare no que Jesus não disse. Ele não acusou a igreja de Éfeso de pecado grave, de doutrina errada, de abandono da fé. Por fora, estava tudo em ordem. O problema estava na motivação — tinham perdido o porquê de fazer o que faziam.
E é fácil se reconhecer nisso. Fazemos uma autoanálise, olhamos pra tudo que cumprimos — os compromissos, o culto, o serviço, as regras que seguimos — e concluímos que está tudo certo, que estamos no ponto, prontos. Mas muitas vezes estamos só no automático. Fazendo porque tem que fazer, sem lembrar o motivo. Tem gente que nem entende mais por que faz o que faz — só sabe que precisa fazer.
Jesus nunca age sem propósito
Nada do que Jesus faz é vazio de intenção. Cada gesto Dele carrega um porquê. E é exatamente esse tipo de motivação que Ele cobra da igreja de Éfeso — e de nós.
A gente se distrai fácil. Com as coisas materiais, com as demandas da vida, com a correria do dia a dia — e nessa distração, esquecemos o primeiro amor. Esquecemos o propósito de tudo que fazemos. Continuamos cumprindo a forma, mas perdemos o sentido.
As fases da nossa fé
É interessante comparar a trajetória de um cristão com as fases da vida. No início, somos como crianças — inocentes, puras, cheias de disposição pra tudo. Depois vamos virando adolescentes, jovens, adultos: o cansaço chega, as responsabilidades se acumulam, e acabamos sendo movidos só por elas, cumprindo tarefa atrás de tarefa.
Mas era lá na nossa infância como cristãos que estava o nosso primeiro amor. Estava no prazer simples de fazer as coisas para Deus, para o próximo, para a obra — antes de virar rotina, antes de virar obrigação.
O "fazer" continua fundamental. Mas o motivo pelo qual fazemos é o que faz toda a diferença.
Volte ao primeiro amor
O convite de Jesus para Éfeso não foi de condenação, foi de retorno: "Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras" (Apocalipse 2:5). E a cobrança vem seguida de uma promessa: "Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida" (Apocalipse 2:7).
Jesus nos lembra, com isso, que a nossa vida é uma batalha constante — uma corrida, como o apóstolo Paulo descreve. Não é sobre chegar uma vez e ficar parada. É sobre continuar correndo, e continuar correndo pelo motivo certo.
Lembre-se do motivo. Lembre-se do propósito. Não é sobre fazer mais — é sobre voltar a fazer pelo motivo certo. Porque de nada adianta ter tudo certo por fora, se o que sustenta tudo isso já não é mais o amor.
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“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. [...] E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.”
